Retomando os trabalhos depois de tanto tempo, resolvi escrever sobre algo que me encheu a paciência durante os anos em que estive na faculdade: por que não gosto, não aceito, nem quero ouvir falar de comunismo, apesar de não ser rico, muito pelo contrário. Fui radical na primeira exposição, mas faz algum sentido.
O tempo me deixou mais light
Quando comecei a estudar ideologias políticas, geografia e história mundial aprendi diversas teorias, exposições, conceitos e opiniões de vários autores e escritos em variados períodos. A partir dos meus oito anos ingressei nas letras das ciências sociais. Lembro-me de ter começado pelo livro introdução à filosofia, que me chamou atenção para autores como Heidegger, que leva à Hegel e conduz à Marx. A universidade conseguiu me deixar mais tranqüilo a esse respeito, pois via que muitos dos meus colegas tinham conhecimento do assunto e discerniam com destreza, provando que a "onda vermelha" não é apenas uma moda como o movimento emo.
A aldeia e o fechamento do círculo
Thomas Morus, o primeiro grande pensador do comunismo/socialismo, se inspirou nos ameríndios para compor o livro mais fácil de ser lido e compreendido deste tipo de literatura, A utopia. Por relatos de marinheiros e experiências próprias, que não foram comprovadas, ele enxergou no grupo de nativos a divisão quase que perfeita das tarefas e dos recursos. O texto que foi produzido posteriormente ao fato relata a vida na ilha de Utopia, onde os habitantes usavam uniformes, não havia distinção de classes (mas existiam os escravos e burocratas) e vida se aproximava daquela levada pelos povos indígenas. O ponto de partida de uma teoria saiu de uma visão corretíssima cientificamente falando: observação de um fenômeno e teorização das ocorrências. Só que esta teoria ficou pelo meio do caminho.
Marx explica tudo (?)
As bases dadas por Morus e ratificadas por Francis Bacon deram instrumentos para que Marx embasasse o mais chato e denso livro já escrito: O capital. Só que Marx não era ingênuo de compor uma teoria qualquer que não oferecesse sustenção holística, ou seja, amparada por outros campos de conhecimento, visão global. A filosofia, principalmente a hegeliana, que buscava a construção do saber através da composição e explicação de um grande sistema, baseou a forma como Karl Marx compôs O capital. As relações de trabalho, economia, sociedade, psicologia social e até filosofia sustentam aquilo o autor defende: a exploração do homem pelo homem, através de um banco de horas imaginário, com elementos de exploração e retirada dos meios produção caracterizam a sociedade capitalista.
Vamos pensar um pouco...
O homem, na visão marxiana, é explorado pelos seus pares. O operário, como é chamado aquele que não possui os meios de produção e vende sua força de trabalho, é refém de outro homem, do Estado e das condições impostas. A conscientização deste cidadão o levará a juntar-se em grêmios com outros insatisfeitos e debelar aquilo que já ocorre, mas de forma isolada e esporádica: a luta de classes. A história é vista deste ângulo pelo alemão, narrando as sucessivas ocasiões em que a batalha de interresses entre os mandantes e os mandaddos, que aconteciam geralmente pela divisão de recursos, eram suscitadas e vencidas pelos mais instruídos ou ferozes. Será que a tal luta de classes é um fenômeno geral? A visão teocentrista, que perdurou durante séculos na europa e no oriente médio, revela que os povos podem suportar abusos sem reclamar durante muito tempo. O temor a deus e a santidade do rei não eram questionados. Não havia luta de classes. Ponto negativo para Marx? Não, ele foi mais esperto e tirou deus da jogada.
Esse Marx não deixa um furo?
Aí é que tá, ele deixou, a partir desses rombos, podemos confrontar o tio vermelho da terra de Schumacher, que não torcia para a Ferrari, para deixar bem claro. Na sua visão, os patrões e os empregados eram adversários históricos. Observando o nascimento das indústrias e a ascensão da burguesia, Marx reparou na desigualdade e ficou abismado com o sistema que proporcionava aos seres uma quantidade invejável de produtos que facilitavam a vida, com a riqueza proveniente do processo e com a iniqüidade dos patrões. O pensamento lógico, filosófico, psicológico, fisiológico, esotérico e astral que conduziu à versão do alemão faz sentido: os operários arrebentariam com seus exploradores, se pudessem, e acabariam com a desigualdade, destruiriam as classes, aniquilariam a segregação e apego à acumulação de divisas. Só que ocorre exatamente o contrário. Há, ainda, questões relativas às projeções econômicas que alertavam sobre o possível consumo prematuro do capitalismo por seu voraz desenvolvimento e falta de diretrizes sustentáveis. Só que os burgueses aprenderam, com o tio Marx ou com outro colega mais chegado, que, para se ter dinheiro, é bom fazê-lo sempre. O capitalismo sempre é reinventado, o socialismo/comunismo parece estático.
Quem manda sou eu!
O sonho de todo (generalização escandalosa, mas aceitável) empregado é tornar-se patrão e mandar nos colegas, se possível. Ok, generalizar é um erro. Mas pensar o contrário é pouco provável. O fundamento que mais legitima e dá consistência ao socialismo/comunismo, e que não conseguirei refutar de nenhuma forma, é o chamado à razão. Para tornar-se socialista, antes de tudo, deve-se dominar conhecimentos, apresentar alguma erudição. Os operários, pouco preparados e massificados, são as massas de manobra dos "camaradas". O capitalismo não exige nada disso. Qualquer um pode ser um belo representante da classe, mesmo sem freqüentar bancos escolares; é mais "democrático".
E os índios?
Eles dividem tudo, não é? Errado, o mais jovens têm direito a tudo de melhor. As mulheres são obrigadas pela força bruta ao trabalho pesado. Os índios não inventaram o dinheiro, por isso carregam a aura ilustrada por Morus. Foram dizimados e mesmo assim, os que restaram demonstram sua inserção no modus operandi do capitalismo. Vejam as nações estadunidenses de Nevada, das aldeias do Xingu que devastam a Floresta Amazônica e dos cocaleiros bolivianos.
Outro exemplo
Os russos só mantiveram o socialismo enquanto deixaram os camponeses como sendo donos de suas terras e gerando prosperidade econômica aos cidadãos. O socialismo, neste viés, pode dar certo, desde que haja concessões que o desconfigure e o aproxime do capitalismo mais puro, daí surgiu a social democracia e outras lógicas amenas.
E o Fidel
O grande estadista Fidel Castro impôs, com mão-de-ferro o socialismo em Cuba. Disciplinou os cidadãos que, hoje sim, estão aptos a estabalecer aquilo que seria o primeiro sistema socialista de sucesso. Mas ele utilizou o medo, o terror, a punição severa, a falta de escolha. O socialismo é, por natureza, um regime ditatorial. Embora não seja tão ruim quanto se pense, impor a igualdade (que poucos querem) é injusto.
Agora complicou...
Não complicou nada. Com certeza você conhece grandes vagabundos. Pessoas com pais que as sustentam, ou não (mantidas pelas forças da sorte do acaso). Acha justo que o vagabau tenha as mesmas oportunidades do que aqueles que estudam, batalham, se entregam às ocupações? O sentimento de justiça é o principal inimigo do socialismo/comunismo, por mais estranho que possa isso parecer.
O que está aí é bom?
Sim, desde que ajustes sejam feitos. Havendo moradia, condições sanitárias, desenvolvimento econômico e Estado atuante, poderoso e justo, o sistema de governo vigente pode dar certo. Estamos no caminho. Nações européias já apontam que é possível a construção de uma unidade pacífica e aprazível constituída através do capitalismo. A competição não é maléfica, impulsiona, agrega. No momento em que houver realmente um pensamento voltado para o desenvolvimento sustentável, distribuição de renda e liberdade, o capitalismo será o sistema que mais se adequará aos ideais expostos anteriormente.
Conclusão: fui claro?
Não gosto do socialismo/comunismo porque os cidadãos que estiverem inseridos no sistema deverão ser adestrados como cães (cubanos), através de castigos e técnicas advindas do behaviorismo, ou seja, não será algo natural, surgido da vontade* da maioria.
*Embora a vontade da maioria possa ser suprimida, na minha opinião, quando a injustiça estiver sendo praticada pelos que integram o número maior de interessados. A injustiça é o pior dos atos, é um insulto à sociedade, a qualquer deus e à vida. E a vontade é uma 'entidade' maleável, que se adequa às necessidades e medos imediatos, tanto de ordem prática quanto de ordem subjetiva.
1 comments:
Oi, Marco. Gostei muitíssimo dessa série de textos. E olha que sou bastante exigente... Além de bem informado - e por isso fala com tanta propriedade -, você tem estilo, opinião, sagacidade, humor e ironia, sem passar do ponto. Legal também você instigar o leitor ao provocar algumas polêmicas. Mesmo incisivo, não é o dono da verdade. Parabéns! beijão
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